Doces declarações musicais

No seu novo CD, Marisa Monte
aborda o amor em suas mais diversas expressões

Rio - O procedimento normal na divulgação do novo trabalho de um artista é, antes da entrevista - seja coletiva ou individual -, encaminhar o disco aos jornalistas. Por isso, os repórteres se espantaram ao chegar na casa de uma tia de Marisa Monte, no bairro Jardim Botânico, na noite da última terça, e encontrar a própria cantora e sua banda mostrando o repertório de seu novo disco, em uma apresentação exclusiva para a imprensa e alguns convidados, como os cantores e compositores Arnaldo Antunes e Lucas Santana.

Após uma hora desfilando o repertório de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor - Textos, Provas e Desmentidos, o novo CD, que chegou às lojas na semana passada, Marisa falou sobre o trabalho. O álbum tem produção da própria Marisa e do músico americano-brasileiro Arto Lindsay. As quinze mil primeiras cópias do disco saem com um encarte especial, que também pode ser encontrado em formato de livro. As fotos desse encarte foram tiradas pela própria Marisa, que há algum tempo deixou-se seduzir por uma câmera digital.

Segundo a cantora carioca, seu novo disco é basicamente um álbum de canções de amor, como o próprio título já sugere. “Esse nome veio do Arto. Ao juntar as canções, percebi que a maior parte delas falava de amor; não apenas o amor de casal, mas o amor transpessoal. Sou Seu Sabiá é sobre o amor à música. Amor, I Love You fala do amor ao amor. E o CD aborda não só o amor bem sucedido, mas a desilusão, a solidão”, explica Marisa.

A cantora acredita que Memórias, Crônicas e Declarações de Amor seja um “dossiê” musical de sua vida nos últimos tempos, especialmente no período em que ela se dedicou à confecção do novo trabalho. “Quando canto é como se lançasse um close em mim mesma. Me revelo através da interpretação”, declara.

Desde que se revelou, há doze anos, o apuro tem sido uma constante na carreira da intérprete, na produção, na escolha do repertório, nos arranjos; tudo devidamente pensado para um casamento sempre representativo de uma voz talentosa, suave, e uma musicalidade elegante, requintada. Não é à toa que em tanto tempo, Marisa lançou apenas cinco discos.

Outro ponto interessante é a evolução dos potenciais artísticos da moça ao longo de todo esse tempo. Ela começou apenas como cantora. Depois, tornou-se compositora e aglutinou em torno de si Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, com quem forma o repertório de base do novo CD. Como novidade, o baiano Lucas Santana, parceiro com o qual a carioca assina a faixa Abololô. “Eu não sei se poderia falar da minha evolução como artista. Talvez ainda seja prematuro para isso. A imprensa pode falar melhor do que eu”, comenta em tom de modéstia.

Na única música que assina sozinha do recente CD, Gentileza, Marisa Monte prestou homenagem a uma figura curiosa e já folclorizada no Rio de Janeiro. Gentileza era uma espécie de “profeta moderno”, um andarilho que saiu pelas ruas da cidade durante quarenta anos pregando a boa convivência entre os homens.

Morto em 96, Gentileza ingressou recentemente no imaginário de composições de Marisa, no dia em que ela foi gravar um comercial para a Campanha da Paz, junto com Carlinhos Brown. “O Gentileza tinha deixado mensagens escritas nos pilares de um viaduto. Chamei o Brown e disse que ia mostrar algo chocante. Quando chegamos lá, fiquei muito triste em ver que haviam passado cal por cima, apagando as mensagens. No dia seguinte, escrevi a música. Foi bastante sintomático o fato dessas mensagens de sabedoria serem encobertas em um momento em que o Rio de Janeiro anda tão violento”, observa a cantora e compositora.

Gentileza tem a participação de Arnaldo Antunes recitando textos literários junto com Marisa. “Gravamos quatro camadas comigo e o Arnaldo. Depois da mixagem ficou meio obscuro. Você não compreende o que está sendo lido, porém identifica a voz do Arnaldo.”

Arnaldo também comparece em Amor I Love You, narrando um trecho do romance Primo Basílio, do português Eça de Queiroz. “Eu queria trazer o Arnaldo de qualquer jeito para esse trabalho, só que não tinha vontade de colocá-lo recitando algum poema. Por ele ser poeta, isso ficaria muito óbvio. Como gosto muito de prosa e Machado de Assis, José de Alencar e Eça de Queiroz resolvi citar essa passagem do livro, quando a personagem lê a carta do Basílio e adquire uma experiência superior”, fala.

Também participa como convidado especial do CD o pianista João Donato, que toca em Abololô e Sou Seu Sabiá, música presenteada por Caetano Veloso. Marisa conheceu o pianista em 93, quando ambos gravaram Alta Noite, do CD Nomes, estréia de Arnaldo Antunes. “É um up grade ter o João em qualquer canção. Ele possui elegância e classe ímpares, com personalidade”, elogia Marisa.

No mês que vem, Marisa Monte estréia o show do novo álbum em Curitiba. Ela faz todo o circuito da região Sul, antes de mostrar o espetáculo no Rio e em São Paulo. Em Brasília, o show chega por volta do mês de setembro.

A cantora só lamenta não poder se apresentar com a Velha Guarda da Portela, de quem produziu um CD no final do ano passado. Enquanto a Velha Guarda segue para Paris, Marisa vai a Curitiba. “O disco deles demorou a sair, já muito próximo do lançamento do meu próprio álbum, o que me impede de divulgar aquele disco com eles.”

A partir do lançamento do CD da Velha Guarda da Portela, acabaram surgindo comparações entre o trabalho realizado por Marisa e o guitarrista Ry Cooder, com os cubanos do Buena Vista Social Club. “São contextos diferentes. Por outro lado, eles têm a mesma graça e são todos pessoas de grande valor artístico e cultural. Fiz shows com o Buena Vista em festivais lá fora e pensei que a Velha Guarda da Portela poderia estar tranquilamente ali.”

Perguntada sobre o que pensou sobre a declaração do amigo Nelson Motta a um jornal do Rio, em que ele afirmou que “não faria coisas como gravar esse pessoal do samba em extinção”, Marisa Monte diz não acreditar na declaração. “Deve haver algum mal entendido, pois mostrei o CD ao Nelson e ele disse que o disco era uma referência. Pode ter sido publicado, mas não se pode acreditar em tudo o que se publica”, afirma Marisa.

Marcelo Araújo
Repórter do Jornal de Brasília

Viajou a convite da gravadora EMI

 

Maiores informações - www.marisamonte.com.br
Media Mania Assessoria e Marketing - Tel:(0XX21)491-9896 Fax:(0XX21)495-9377

 

<< voltar



2000 © Mediamania Assessoria & Marketing