A história de

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

Ou como o amor que virou circo foi parar nos palcos

O livro A maravilhosa História do Circo conta assim: "Em Viena, durante o reinado de Maria Tereza da Áustria, viveram os irmãos Charles e Frédéric Knie, este médico, que casou em 1873 e no ano seguinte teve um filho, também chamado Frédéric, fundador da dinastia Knie, ligada à arte do circo. Aos 18 anos, estudante de medicina em Insbruck, Fréderic apaixonou-se pela acrobata de uma companhia eqüestre ambulante e seguiu a troupe em turnê. Interessando-se pelo trabalho dos saltimbancos, aprendeu o ofício de funambulista. Em 1806, montou sua própria companhia, viajando com uma exibição de dança e acrobacia na corda bamba. Três anos mais tarde, já com a segunda esposa (que reclusa pelo pai em um convento, foi de lá resgatada por Frédéric através de uma corda bamba), passou por momentos difíceis por causa da guerra, trabalhando apenas pela sobrevivência diária. Logo em seguida, porém, tornou-se próspero e orientou os filhos na arte circense; Charles, o mais velho, não se interessou pela profissão, mas Rodolphe, Carl, Franz e Fanny seguiram a dinastia. Todos foram grandes artistas, e Carl, o mais notável deles, teve filhos que continuaram o seu trabalho: Charles, Clara (casada com o funambulista Henri Blondin), Marie (esposa do clown Futelet) e Louis; e os filhos deste (Frédéric, Rodolpho, Charles e Éugene), por sua vez, perpetuaram a dinastia do Circo Knie, fundando, em 1919, o Circo Nacional Suiço. O sucesso dos Knie continua, num circo famoso pela qualidade de seus animais amestrados e pela beleza de seus espetáculos. Em sua sede, às margens do lago de Zurich, a dinastia está assegurada por uma numerosa geração de pequenos Knie, treinados na melhor tradição dos antigos saltimbancos."

Hoje em sua sexta geração, o circo dos Knie é famoso e conhecido em todo o mundo. Mantém um zoológico, tem 107 empregados, 150 carros e 150 animais amestrados. Em seu comando está o domador Franco Knie. Mas foi baseado na história de seus antepassados que o alagoano Jorge de Lima escreveu, em 1938, o poema "O Grande Circo Místico", publicado no livro A Túnica Inconsútil (onde a família foi renomeada pelo poeta como Knieps). Que é assim:

O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps –

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre,

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do Grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

Em 1980, visando popularizar a dança e a companhia com montagens feitas especialmente para ele, o Balé Teatro Guaíra encomendou "Jogos de Dança" a Edu Lobo. O sucesso da empreitada motivou o passo seguinte, que seria a criação de um espetáculo baseado num roteiro pré-estabelecido. Naum Alves de Souza, cenógrafo e figurinista de "Jogos" sugeriu o poema de Jorge de Lima. Pouco depois Chico Buarque, assim como diversos outros colaboradores, foram sendo reunidos à trupe. Quando "O Grande Circo Místico" estreou, em 83, sob a direção de Emílio de Biasi e com coreografia de Carlos Trincheira, era não só a projeção da companhia como uma das melhores do Brasil, mas a consagração de uma das mais completas obras já criadas no país, uma rara reunião de balé, ópera, circo, teatro, música e poesia. A união destes talentos ainda daria mais um fruto, o espetáculo "Dança da Meia Lua", também com músicas de Chico e Edu, que o Guaíra montaria na temporada 85/86, com coreografia de Rodrigo Pederneiras.

 
 
voltar